quarta-feira, 19 de agosto de 2015

mordi uma pêra
que parecia seu ombro

quão estúpido é te ver numa fruta
sendo que agora
eu vejo mais a fruta
do que vejo você

domingo, 28 de junho de 2015

Eu cedi. Cada fio do meu cabelo desistiu. As unhas do meu pé desistiram. As da mão eu roí (eu ruí). Cada cravo do meu rosto, cada pelo da minha perna, cada gota de suor, todos eles desistiram. Os fiapos das minhas blusas de frio com cheiro de mofo, as costuras mal feitas no vestido, as teclas do meu computador também desistiram. Cada música que eu escuto, cada livro que eu leio, falam sobre como tudo desistiu. Cada passo que eu dou é de desistência. Cada célula do meu corpo desistiu. Até as mortas. As fotos, os filmes, os desenhos e as risadas. Desistiram também. A comida no prato e o café frio também desistiram. Cada maldito milímetro de tudo que me pertence e ainda vai me pertencer desistiu. Eu desisti. Não vai passar. Não vai deixar de doer. E dói em cada célula, as vivas e as mortas. Em cada passo. Em cada tecla. Em cada letra cheia de rancor que te escrevo e você não lê. Não vai passar.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O café era quente.
Mas ele
é
m a i s.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

quadril no chão
a dor só vem amanhã
o hematoma só vem amanhã
o vazio já vem de manhã
mão na nuca
não a mesma de ontem
nem a mão
nem a nuca
nem o gosto
nem a cama
nem a voz
nem o cheiro
muito menos o cheiro
mudou tudo
(me) mudei também