terça-feira, 30 de setembro de 2014

Fechou os olhos.
Não era hora de dormir,
Sua mãe dizia.
Fechou os olhos,
Descobriu que o peso
Não era sono.
Viu ele, o peso, desaguar
E deixou escorrer,
Até dormir.
Sonhou com monstros
Destruindo tudo
Pisando em tudo
Como se o tudo
Fosse nada.
Acordou.
Achou que o sonho tivesse acabado.
Ao invés disso
Viu o monstro,
Pisando em tudo,
Enquanto dizia
Que não era hora de dormir.

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Câmbio, na escuta

Hoje eu chorei. Jogada no chão. Deitei e chorei alto, gemi de dor como se me arrancassem um pedaço. Passou como veio, sem explicação. O porquê só veio quando o calendário me contou que estava fazendo aniversário.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Às vezes
Dói grande
Tão grande
Que eu fico
Pequenininha pequenininha
Com vontade
De deitar
(desmoronar)
Encolhidinha
No bolso da sua camisa
Pra você
Me cuidar
(vigiar)
Até passar
Até eu ser maior
De novo

quinta-feira, 21 de agosto de 2014

Banquete

Eu quero te engolir.
Te consumir.
Te saborear,
Pedaço por pedaço.
Te guardar em mim.

Eu quero te engolir.
Pra você não fugir de mim.
Pra eu poder fugir com você.
Pra eu só precisar de você pra dormir.
Pra te ter quando acordar.

Vou te engolir,
Pra ter você
À meu mercê.
Ter você completo.
Como você tem à mim.
Completa.
À seu mercê.

sexta-feira, 25 de julho de 2014

Rascunhei alguma coisa pra você.

sábado, 21 de junho de 2014

A cabeça voa longe. Desgovernada. Sem rumo.

O corpo continua imóvel. Sujo, prostrado, inerte.

A cabeça gira como a de um bêbado. Como a de um indigente que se embebeda pra esquecer que a noite chega e todos se recolhem em suas casas. E a casa dele é a sarjeta. A casa dele é lugar nenhum. A cabeça gira como numa roleta russa. Sem fim. Sem ponto. Roleta que não dispara. Não acaba com a angústia de saber que depois do primeiro gole, a bebida sempre chega ao fim. De saber que a porta em que você entrar vai ser a mesma que você vai sair. De saber que depois do primeiro olhar, o amor sempre acaba. E o indigente esquece que todos já foram. Esquece como chegou ali. A cabeça sem rumo esquece porque se perdeu. Mas continha se perdendo. Se embebedando.

O corpo continua só, prostrado, são.

sábado, 31 de maio de 2014

Cheiro de cigarro apagado
Mal fumado
Mal tragado
Mal amado.
Jeito de boca mal beijada
Boca escancarada
Pedindo, suplicando.
Ruído de prazer mal feito
Desfeito
Sujeito que sai como se não tivesse entrado
Suspeito de ter começado
Despeito por ter continuado
Defeito por não ter terminado.
Se fere quando se toca,
Se machuca se afagando,
E como é triste se afagar pra dormir.
Como é triste dormir só.
Se fere quando se toca,
E ainda assim, se toca.
Mesmo conhecendo o vazio depois do êxtase.
Mesmo conhecendo o sabor do vazio.
Mesmo se esvaziando sem nunca se encher.
Sempre se escorrendo.
Sempre se esvaindo.

terça-feira, 6 de maio de 2014

Eu perguntei se ela queria ir embora e antes que eu pudesse perceber ela já estava no portão. Em um minuto ela já estava no pé do morro. A saia dançando com o vento, como se quisesse voar pra longe de mim. Em três minutos eu já não conseguia mais sentir seu cheiro. Ela continuava voando, atravessando a rua na frente dos carros como se fosse obrigação deles ajudar em sua fuga. Com cinco minutos ela já estava no ponto de ônibus, pensando em outra coisa, qualquer outra coisa. Com quarenta e cinco minutos ela desceu do ônibus, pensando na explicação que daria por chegar aquela hora. Com cinquenta e cinco minutos ela já tinha pensado, elaborado e contado uma história aleatória e clichê. Uma hora e ela já estava tirando a roupa no banheiro e reclamando baixinho de um corpo que eu nunca vi defeito. Uma hora e três e ela ligou o chuveiro na água mais quente que podia e entrou debaixo daquela nuvem de fumaça, fervendo, deixando sua pele vermelha, como costumava ficar antes, só que comigo. Uma e trinta e cinco e ela está debaixo das cobertas comendo alguma coisa e pensando se deveria fazer aquele trabalho. Mas não vai. Duas horas e ela apaga as luzes, ajeita os travesseiros, coloca o despertador e fecha os olhos torcendo pra dormir logo, torcendo pra cabeça parar de pensar. Duas horas e um que ela saiu e eu ainda estou esperando ela voltar dizendo que esqueceu de me beijar.