quarta-feira, 24 de abril de 2013

Assombração

Eu quero desenhar escrito. Quero imprimir nos muros da rua qualquer coisa que te faça lembrar de mim. Quero bater na sua porta só pra solidão se fazer presente. Eu quero te ligar pra dizer que eu já não ligo mais. Eu quero tocar nossa música na sua janela, só pra tirar seu sono. Já que você tirou o meu. Já que te tiraram de mim. Eu quero que no caminho do seu trabalho você cruze com alguém parecida comigo e que no ônibus sente alguém do seu lado com o mesmo perfume que eu uso. Usava, joguei fora. Eu quero que na televisão passe aquele filme horrível que nós tentamos ver juntos não conseguimos. Mas você vai conseguir. Eu realmente quero que sua vizinha chata pergunte porque eu nunca mais apareci, e que pareça que seu travesseiro nunca mais foi o mesmo sem o cheiro do meu cabelo grudado nele. Eu quero que quando você estiver com ela, você esteja pensando em mim. Você sempre vai estar pensando em mim. Eu quero estar presente no seu dia todo, todos os dias. Quero assombrar cada momento seu. Por puro tédio. Por pura vontade de atormentar. Por puro prazer em destruir.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Outono

Sentei ali naquele banco frio. A praça estava toda vazia. Nas tardes quentes, ela costuma ficar cheia de crianças, correndo de um lado pro outro, gritando e pulando, mas hoje está tudo frio. O vento era minha única companhia ali. Eu sentei e antes mesmo que eu pudesse notar, vi que uma única e mísera lágrima caiu do meu olho. Foi a primeira lágrima de meses. Dentro dela tinha tudo que eu vi e fingi não ver. Tudo que eu ouvi e preferia não ter ouvido. Tudo que eu senti e não deveria ter sentido. De repente eu senti que poderia colocar todos os meus sentimentos empoleiradinhos na cabeça de um alfinete. De tão apertados que eles estão. Eu senti que pouco a pouco eles foram perdendo espaço e eu não sei o que fazer com tanta coisa e tão pouco lugar. Tanta coisa em tão pouco tempo. Eu me senti sufocar. Eu sucumbi à tudo aquilo que evitei e vacilei. Caí da corda. E a regra é clara, quem cai, volta ao começo. De repente eu senti que tudo que eu mais queria, era não sentir. E eu estava lá, sentada naquele banco frio. Sozinha.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Todas as vezes que eu me encontrei, me entendi, eu fugi de mim. Sempre que eu me refiz, sempre que eu me consertei, sempre que eu me senti completa, não por ter achado quem me completasse, mas por achar em mim o que faltava, eu conseguir me desfazer, me despedaçar, me destruir. Sempre eu. Minha maior inimiga. Eu sou fraca demais. Deixo que as pessoas decidam pra mim e depois quero culpá-las. Mas é de quem a culpa, se não minha? Minha culpa, por nunca saber aproveitar a minha companhia. Minha culpa por achar que eu só vou estar completa quando tiver quem me complete. Eu não nasci presa em ninguém! Eu não preciso de ninguém pra me sentir completa! Mas mesmo assim, eu procuro alguém que decida por mim, que opine por mim, e que me diga o que eu estou sentindo e quando estou sentindo. Isso tudo pra não ter que lidar com o fato de eu sou responsável pelos meus atos e que posso fazer o que eu bem entender. Eu me perco com possibilidades. Eu não sei lidar com a liberdade.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

A fumaça afasta as idéias e esquenta o frio de dentro. A garganta arranhando dói menos que o resto. A brasa queimando devagar distrai os olhos e a cabeça. O pedaço de papel e fumo entre os dedos ocupa as mãos. Mãos que criaram o hábito de te segurar. Mãos que criaram o hábito de sempre ter entre elas algo que vá acabar comigo.