segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Eu não quero mais isso tudo. Não quero mais ajuda. Não quero mais fazer isso por mim mesma. Eu preciso de alguém que me diga o que fazer. Preciso de alguém que guie meu passos, porque eu simplesmente não sei mais por onde andar. Eu não quero mais andar. Não quero mais tentar. Eu não vou conseguir sozinha.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Me tira daqui

Numa festa qualquer, numa noite qualquer, numa esquina qualquer:

- Oi... Tá tudo bem? Você parece meio...
- Deslocada. É, eu tô mesmo. Sabe aquela coisa de "Festa estranha com gente esquisita"? Pois é.
- Entendi... Bom, quer tomar alguma coisa?
- Quero, brigada.

Eles seguem pro bar, lá ele pede uma cerveja e pergunta o que ela vai querer:

- Vodka. Pura.

Ele se surpreendeu com a escolha. Uma garota como aquela, baixinha, loira dos olhos claros, não parecia ser como aquelas outras garotas fúteis que disputavam quem tinha o vestido menor, ou o salto mais alto.Na verdade ela não parecia pertencer aquela lugar, ela parece ter caído de paraquedas no lugar mais errado que podia ter no mundo. Ele ficou reparando nela, no jeito com que ela bebia a vodka como se fosse água, como ela olhava com um ar de desgosto pra todas aquelas pessoas, no olhar vazio que volta e meia se enchia d'agua. Eles ficaram em silêncio por alguns minutos. Até que ela vira pra ele, num movimento rápido e repentino e fala:

- Me tira daqui.

Ele meio sem entender, um pouco pelo som alto, e também por ter sido do nada, pergunta:

- Oi?
 -Me tira daqui. Agora. Por favor.
- Er... Tá, claro. Vamos.

E ele pega ela pela mão, e sai da boate, meio sem entender direito e sem saber pra onde estava indo. Quando saíram daquela multidão de jovens excessivamente felizes, ele pode olhar melhor pra ela, que parecia ainda mais linda.

- Você não me disse seu nome.
- Verdade... É Laís. E o seu?
- Caio. Bom Laís... Pra onde você quer ir?
- Não sei. Qualquer lugar que não tenha tanta gente e tanto barulho.
- Entendi... Acho que sei de um lugar. Vem, meu carro tá estacionado ali na frente.

Eles andaram um pouco e logo acharam o carro de Caio. O trajeto até o lugar onde eles estavam indo foi feito todo em silêncio. Caio estava curioso sobre Laís. Ele pensou que aquela seria mais uma noite normal, de ir para alguma boate, conhecer alguma menina sem graça pra passar a noite e voltaria sozinho pra casa, como sempre. Ele já nem se importava mais. Pouco tempo depois eles chegaram à porta de um edifício alto. Ele disse pra Laís que haviam chegado, e ela ficou um pouco receosa. Caio se defendeu à tempo.

- Não, eu não tô te levando pro meu apartamento pra gente transar. Relaxa, não sou esse tipo de cara.
- Bom saber, eu fiquei um pouco assustada. Mas enfim, já que estamos aqui, pra onde você vai me levar?
- Calma, já chegamos lá.

Eles entraram no prédio, e subiram de elevador até o terraço. A vista lá de cima era incrível. Eles podiam ver boa parte da cidade, ainda acesa, ainda acordada. O vento soprava forte, e bagunçava o cabelo de Laís que ainda estava extasiada com a vista.

- Que lugar lindo! Você mora nesse prédio?
- Moro. Na verdade eu fico mais tempo aqui em cima do que no meu apartamento. Eu trabalho muito e quando tenho um tempinho pra descançar, um tempo pra mim, eu venho pra cá.
- É realmente lindo. E... Me desculpa. Ter te tirado de lá, te pedido pra me tirar de lá, na verdade...
- Não. Tudo bem. Eu também não gosto muito daquele lugar. Vou lá mais por falta de opção. Mas... Me conta sobre você. O que tava fazendo lá?
- Não sei... Eu tava cansada de ficar em casa. Cansada do meu quarto, da minha vida. Aí decidi fazer uma coisa que eu não faria normalmente. Sair para uma boate onde só teria mulheres fúteis e caras idiotas.
- Ei! Eu não sou idiota!
- É, você não é. Ainda bem que você apareceu. Eu tava quase ficando louca ali.
- Que bom que você apareceu pra tornar minha noite mais interessante.

Laís parecia extasiada com aquela vista, com aquela altura. Ela não parava de olhar lá pra baixo e sussurava coisas aleatórias que Caio não entendeu. Ela começou a falar em voz alta, quase gritar.

- Aqui é tão alto! Tão aberto! A gente se sente tão livre, tão... Tão tranquilo! Sabe -nisso, ela olhou para Caio e ele pode ver que ela estava chorando- quando eu pedi pra você me tirar "daqui", eu não estava só falando da boate. Eu estava falando de mim. Me tira daqui! Me tira de dentro de mim! Me deixa ser outra pessoa!

Caio ficou assustado. Laís estava com um olhar vidrado, assustador.

-Calma... Laís, vem cá, fica calma, do que você está falando?
- Eu tô falando de mim! Eu não aguento mais ser eu! Não aguento mais ser tudo que eu sou. Não aguento não conseguir ser como todo mundo.
- Mas... Você não é como todo mundo! E isso é bom. É ótimo. Você é diferente de todas aquelas garotas idiotas que estavam naquele lugar.
- Mas eu não quero mais ser isso. Não quero mais ser eu. Não quero mais estar aqui.

E se sentou na mureta, com os pés para fora, soltos no ar.

- Sabe? Eu poderia voar. É, eu poderia mesmo. Voaria pra bem longe de tudo que me deixa mal. Voaria pra sempre.

Nisso, ficou em pé sobre a mureta. Caio estava sem saber o que fazer. Aquela garota tinha começado a falar coisas sem sentido e agora estava falando sobre voar, no alto de um prédio. Ele tentou interferir:

- Laís, sai daí, é perigoso, você pode acabar caindo. Vem, desce, vamos sair daqui.
- Não! Eu não quero sair! Eu quero voar. Quero deixar de ser eu. Quero sair daqui!

Falando isso, ela se jogou. Se jogou com um sorriso no rosto como se tivesse esperado a vida toda pra fazer aquilo. Como se tivesse esperando por aquela oportunidade o tempo todo. Ele sentiu seu mundo cair. Ele levou uma garota que tinha acabado de conhecer pro alto de um prédio, e ela simplesmente se jogou. Ela se jogou. E ele estava lá, sem saber o que fazer. De repente, ele escuta um barulho. É o despertador. Caio levanta assustado, ainda abalado pelo pesadelo que teve. Era tudo tão real... Mas não passou de um sonho e ele não tinha muito tempo ou se atrasaria pro trabalho, e ainda tinha que passar na livraria antes. Depois de tomar uma banho rápido e um café nada saudável, ele sai apressado, pega seu carro na garagem e vai à livraria. Pega rapidamente o livro que foi comprar e se dirige à fila, que não estava tão grande. De relance ele pode ver a balconista, e... Ele a conhecia. De algum lugar. Aquela voz... Aquele cabelo... Aqueles olhos... Não, não podia ser. Sua vez chegou e ele teve certeza. Eram os mesmo olhos claros e vazios, o mesmo cabelo loiro e solto, o mesmo rosto, as mesmas feições. Ela era idêntica à...

- Bom dia senhor, posso ajudá-lo?

E no crachá, o nome dela, Laís.

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Eu me preocupo demais. Idealizo demais. Sofro demais. Choro demais. Penso demais. Imagino demais. E no final das coisas, eu canso demais. Eu desisto rápido demais, e toda aquela preocupação, todo aquele rancor, aquele ódio, ou seja o que for que eu estava sentindo, desaparece. Some. E eu me sinto estranhamente tranquila. Uma tranquilidade quase doentia. Uma tranquilidade sádica. Eu me sinto vazia. Completamente vazia. Vazia demais.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Apenas mais um dia normal

O despertador tocou. Aquele som de vibracal me irrita profundamente. O primeiro pensamento que passa pela minha cabeça é "De novo não...". Eu levanto, quase me arrastando, e lá vou eu. Me arrumo com a animação de mil preguiças, tomo um gole de café, café esse que há tempos não é tão bom quanto eu me lembrava. Na televisão uma mulher diz que a temperatura é de 20ºC. Não está frio, mas eu simplesmente não consigo sair de casa sem um moleton. Me empurro pra fora de casa, andando desanimada, torcendo pra que algo me impeça de ir à escola. Me sento no ponto de ônibus. Pessoas indo para o trabalho conversam sobre amenidades desnecessárias. Não bastava ter que sair do conforto da minha cama, em minutos eu estaria dentro de um ônibus lotado, com pessoas falando alto, e uma música de mal gosto tocando no fundo. De repente, uma névoa densa e gelada começou a surgir do nada, nesse momento eu pensei "Que bom que eu trouxe blusa de frio." Eu gosto de névoa, acho que deixa um ar melancólico. Mas ela foi ficando mais e mais densa, como se tivessem jogado gelo seco no ar. A visão começou a ficar comprometida, e eu só conseguia enxergar vultos. As pessoas pareciam não perceber e continuavam conversando sobre besteiras. Parecia que só eu via aquilo. De repente, de uma nuvem à minha frente, surgiu um vulto, um vulto imenso. Eu continuei procurando na expressão das pessoas à minha volta algum resquício de surpresa com aquela aparição, mas eu não conseguia enxergar seus rostos. Foi então que eu ouvi. Aquela monstruosidade estava falando comigo. "Você nunca imaginou que tudo isso terminaria assim, imaginou? Você que queria o fim, seja pelo meio que for, nunca imaginou que eu viria te buscar pessoalmente, não é? Você nem mesmo acreditava em mim." Era uma voz rouca. Aquilo, seja o que fosse, não estava gritando, estava falando com calma, com paciência, quase com um certo prazer em dizer essas palavras. E estendendo a mão em minha direção, imensa, com unhas pontiagudas, continuou "Vamos, não torne as coisas difíceis. Venha comigo." Eu não entendia nada, mas parecia que eu estava na presença dela. De repente, tudo se apagou. As pessoas (ou os vultos), o ponto de ônibus, a rua, as casas, tudo desapareceu. Eu sentia que sabia o que devia fazer. Estendi minha mão em direção à dela, senti sua pele gelada, mas macia se encontrar com a minha. Pude a ouvir sussurrar "Muito bem, minha menina." Então, num estalo, vibracal. 6:00 hrs. "De novo não..."