terça-feira, 20 de dezembro de 2011

O Maluco das Flores


Era um moço velho já. Rosto cansado, mãos calejadas. Morava mais uma empregada, velha também, quase surda a senhora, que falava com os ratos e baratas pelo chão. O tal moço era conhecido na cidade, o chamavam de O Maluco das Flores. Eu explico o porquê do apelido: Ele tinha mania de sair por aí catando flor, por tudo quanto é jardim, tudo quanto é lugar. E fazia isso calado, como se ninguém pudesse vê-lo. No começo ainda indagavam o porquê de tanta flor, mas depois de um bom tempo sem respostas, pararam de perguntar. Dona Adélia, a empregada, nem procurava saber o porquê das flores, só xingava sozinha pelos cantos “É flor morta pra todo canto, não tem mais espaço nessa casa pra flor morta, ouviu?” Ninguém ouvia. E foi assim, por anos e anos. O Maluco das Flores saía na rua e já apareciam crianças atrás dele com margaridinhas nas mãos, pra lhe dar. Até que um dia ele adoeceu. Uns disseram ser a hora dele, já era velho. Outros diziam ser a loucura que o jogou na cama. O médico examinou “Não faz bem tanta flor assim em casa, meu homem. Ainda mais quando a maioria está seca já. É muito fungo, o senhor já é velho, não tem pulmão que agüente.” E com dificuldade, o moço já branco como folha consegue falar “Pro que eu quero serve doutor. Perdi a mulher da minha vida ainda nova, essas doenças que não se curam, sabe? E como ela gostava de uma flor, doutor! Os olhos faltavam pular pra cima de uma beleza dessas. Aí eu prometi um dia ir pra junto dela e levar um monte de flor comigo. E eu tô indo né, doutor?” O médico sem saber o que falar olhou pra Dona Adélia, que parecia paralisada com aquilo tudo, quando se virou de novo pro paciente, ainda conseguiu ouvir ele dizer “De que adianta flor viva pra gente morta?”  e morreu, morreu tranqüilo e ciente como quem compra pão. No seu enterro, meio dúzia de gatos pingados, não tinha parentes nem amigos, só se via Dona Adélia e outras donas de jardins de quem ele já tinha furtado uma rosa ou outra. Ele foi enterrado com um buquê de suas flores mortas, como queria, pra levar pro seu amor. Ninguém jogou flores em cima de seu caixão, ou depois, em seu túmulo. “De que adianta flor viva pra gente morta?”

sábado, 17 de dezembro de 2011


Lá estava eu de novo, caminhando sozinha. Eu não culpava ninguém mais por isso, sabia que de certa forma, se hoje eu me sentia daquele jeito, foi porque eu agi pra que acontecesse assim. Confesso que no começo eu tropecei muito, caí demais, e custei a levantar tantas vezes. Muitas delas eu cheguei a preferir ficar no chão, mas no fim eu sempre levantava. A fase turbulenta ia passando, e eu voltava a enxergar melhor, com mais clareza. Já conseguia ver o que era o certo e o que era errado e passei a entender que os atalhos no caminho só faziam me atrasar. Eu continuava andando sozinha, com minhas próprias pernas. Até que apareceu companhia. Muito bem vinda por sinal, e eu, achei qualquer estrada seria mais agradável acompanhada. Só que não me acompanharam. Não sei por que, parei de fazer suposições há muito tempo, mas não me acompanharam. Não posso dizer que não fiz minha parte, fiz. Procurei saber, procurei entender... Mas não me acompanharam. Então eu decidi continuar minha caminhada. Nenhuma porta se fechou, eu só não vou implorar por nada.

domingo, 11 de dezembro de 2011

[risada forçada, sem graça, sem cor, irônica, sem motivo, quase desesperada, os olhos cheios d'agua, o nó na garganta denuncia que alguma coisa deveria ser dita, o sorriso ainda está no rosto]


Silêncio.



segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

São números demais


Quantos corações frios são precisos pra formar um abraço quente? Quantas vidas são necessárias pra fazer tudo valer a pena, sem se arrepender? E quantas bocas nuas, loucas de desejo, não andam por aí, vagando, procurando quem mereça tanta devoção? Quantas almas limpas abertas e aptas não estão apodrecendo a espera da sua metade da laranja? E quantos olhos marejados, seja por amor ou dor, emoção ou desilusão, quantos desses ainda desaguarão até que o riso seja sem fim? São números demais.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Toque o céu


Um dia, um grupo de pessoas estava sentado ao chão, numa conversa um tanto tímida. Uma garota de traços finos, não aparentando ter mais de 20 anos disse:
_Eu tinha um sonho. Queria ser do grupo das populares da escola, andar com as mais bonitas. E foi tentando isso que fui humilhada na frente de todos.

Um garoto grande e desengonçado que estava ao lado dela tomou a palavra:

_Eu tinha um sonho. Sempre fui apaixonado pela garota mais bonita da classe, a amava em segredo, mas um dia decidi falar com ela, fui rejeitado, ela quebrou meu coração.

Uma senhora que estava do outro lado do grupo, sempre muito discreta, disse:

_Eu tinha um sonho. Queria cursar a faculdade, já que quando era nova não pude. Mas fui tão mal aceita em minha turma que desisti do curso.

Então, uma mulher pediu a palavra. Ela era a que tinha chegado mais machucada naquele lugar, e nunca se aproximou de grupo algum. Era um espanto pra todos vê-la falar, então ela disse:

_Eu tinha um sonho. Desde pequena quis ser bailarina. Minha família era pobre, não tinha dinheiro pra essas coisas. Mas isso não me fez desistir. Eu ia à escola de dança ver as meninas dançando, tentava aprender algo. Quando tive idade suficiente, saí de casa em busca do meu sonho. Passei por muitas academias de dança, em muitas cidades eu ouvia dizer que eu dançava muito bem. Eu mal tinha dinheiro pra comer, fazia bico de garçonete pra poder me sustentar, já que o ballet ainda não era minha profissão. Decidi ir pro exterior, fazer carreira. Gastei todo o meu dinheiro nessa viagem, e me inscrevi pra entrar num famoso grupo de ballet. Fiz o teste. E fui reprovada. Disseram que eu não chegava ao nível do restante do grupo. Sonhei alto. Minha queda foi feia. Mas vejam só, estou aqui, junto de vocês que não se arriscaram tanto quanto eu, não alçaram vôos tão altos. A diferença entre nós, é que eu voltei com coisas pra contar. As cidades por onde passei, as pessoas que conheci, as danças que pude ver. A dor da queda valeu a pena. Por isso, se algum dia vocês ainda quiserem sonhar, eu dou um conselho: Sonhem alto. Não há queda no mundo que tire o gosto de correr atrás do que queremos.

E nesse momento, todos começaram lentamente a ganhar altitude, subindo, cautelosamente, pois todos sabiam, que mais acima deles, existia um lugar onde os sonhadores bem sucedidos viviam da glória dos seus vôos.