quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Deixa chuvar


Fora as folhas do livro molhadas
E as anotações borradas.
Fora as poças que encharcam os pés,
E as gotas que de plinc em plinc
Ensopam a cabeça.

Fora a disputa por lugares cobertos
E os ônibus com seus horários incertos.
Fora o guarda-chuva estragado
E as mulheres tentando salvar o penteado.

Fora tantas outras coisas mais
Que você possa pensar,
Não tem porque não ir lá pra fora,
E deixar a chuva molhar.

terça-feira, 29 de novembro de 2011


Com o tempo a gente se livra dos excessos. Aquela necessidade de ser, parecer e estar vai passando e a gente só quer passar despercebido. O menino que quando pequeno queria ser um astronauta conhecido hoje só quer um emprego que lhe pague as contas e lhe sustente os vícios adquiridos com o tempo.  A menina que queria dançar no Ballet Imperial da Rússia, hoje desistiu da faculdade, trabalha de vendedora e economiza pro enxoval. As pessoas vão ficando mais velhas e desistem do que sonhavam quando criança. Se cansam fácil demais e tudo que vá além de uma vida pacata e acomodada passa a dar preguiça. Acho que a palavra é essa: Passa. Os desejos passam, a vontade passa, a dor passa, os sonhos passam... A vida passa e a gente fica com preguiça de viver, e só quer ver ela passar.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Segundo Ato


Julieta entra em cena. Ainda é possível ver suas olheiras de noites mal dormidas e rios chorados. Ela aparenta abatimento, mas tenta disfarçar num sorriso tímido o quanto a saudade tem lhe doído. “Oh Romeu, onde está meu Romeu? Será que o perdi pra quem lhe deu o valor que me faltou dar?” Nisto, cai ao chão, desolada. Romeu entra em cena, cantarolando algo alegre, quando se depara com Julieta no chão, que de tão entretida com suas mágoas, nem vê seu amado entrar. “Julieta, que fazes neste chão? Levanta-te, diga-me quem lhe causa tanta dor!” Julieta levanta, fraca. “És Romeu, tu quem mandei embora sem razão e levou consigo todo o meu viver!” Romeu espantado se afasta sem compreender. “Quanta besteira Julieta! Tu causas tua própria dor. Foste tu quem não me quis.” Julieta tenta se aproximar. “Errei Romeu. Errei e pago pelo meu erro dia e noite.” Romeu segura Julieta pelos braços olhando no fundo de seus olhos, depois a abraça. Ela sente um alívio, pois pensou que nunca mais sentiria isso. “Diga que me queres Julieta, diga que teu coração ainda pertence a mim.” Julieta aos prantos acaricia seu rosto amorosamente. “Oh Romeu, meu Romeu! Volta pra onde nunca deverias ter saído, volta!” Nesse momento os dois se beijam intensamente, mas singelamente, e de costas pro público, assistem a uma lua cheia e amarela que surge ao fundo, no cenário. As luzes diminuem até apagarem completamente.

Fim do Segundo Ato.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Os belos horizontes de BH


Julguem o quanto quiser, mas preciso falar: Eu amo Belo Horizonte. Cada pedaço, cada detalhe. Confesso que não sou das visitantes mais assíduas, mas todas as vezes que passo por aquelas ruas, encontro uma coisa nova que me prende a essa cidade. Me impressiona os prédios imensos, modernos, do lado de outros tão antigos, tão dignos de atenção. A mistura entre portarias e elevadores do século XX e grafites e pinturas coloridas e abstratas. E as ruas? Inclinadas como só elas. Cada morro uma surpresa. Pequenos bares, cafés que parecem ser uma sala da estar de tão aconchegante. E as árvores? Escurecem a rua, dão um ar de harmonia entre o cinza e o verde. Belo Horizonte pode parecer só mais uma capital, só mais um monte de gente diferente e apressada, mas em lugar nenhum no mundo, você verá um empresário engravatado, no celular, parar numa lanchonete pra perguntar “Tem pãodiquejo?”

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Amiga Lua


Ficamos eu e a lua. Perdi a noção de quando tempo ficamos a sós pra chegarmos a algumas conclusões. Pelos primeiros minutos, eu lutei para gravar em foto a beleza de uma lua alaranjada, num céu onde as nuvens pareciam terem sido desenhadas à mão. Mil maneiras, mil configurações. Mais cor, menos brilho, mais contraste, menos saturação, e no fim, foto nenhuma fazia jus a beleza do que eu via ali, na minha frente, prestes a desaparecer com as nuvens. Depois, parei pra pensar. Parei pra escutar o que a lua me falava. Eu confesso que demorei um pouco pra entender, mas cada vez as coisas faziam mais sentido. Eis o que a lua me disse: “Não adianta querer gravar minha beleza pra mostrar pra alguém. Esse alguém nunca vai entender o que você sentiu ao me ver, nunca vai desvendar numa imagem estática, a beleza do ventos mudando o desenho das nuvens. Esse alguém só vai entender a grandeza do que você viu e sentiu, quando estiver aí, do seu lado.”